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Mania de perseguição

Martha Medeiros

Tenho uma amiga que, como boa taurina, é desconfiada à beça. Não importa sua inteligência, vivência, maturidade - tem uma hora em que ela encasqueta que estão lhe puxando o tapete. “Vivian, isso é paranoia”, digo a ela. “Pode até ser, mas ai tem”, ela me responde.

Se alguém não telefonou como prometido, ela nunca cogita que foi um esquecimento. É porque, provavelmente, a pessoa está desapontada com ela, ou indignada com ela, ou querendo evitar de lhe contar algo importante.

Se ela foi a única a não receber o e-mail de alguém da nossa turma, pronto: foi excluída. A remetente explica: “Jurava que você estava viajando, foi só isso”. Vivian sorri e fingi que perdoa, mas por dentro: “Achou que eu estava viajando, sei”.

Se o porteiro esqueceu de entregar a correspondência, se o garçom trouxe o refrigerante errado, se o jornal veio sem o caderno de classificados, se a cabeleireira passou mal no horário em que Vivian seria atendida, ela não pensa que é perseguição: ela tem certeza.

Casualidade, fatalidade, coincidência, nada disso faz parte do vocabulário dela. O acaso, em sua vida, não existe. Tudo tem uma explicação, e a explicação é que as pessoas estão aprontando com ela, ou fugindo dela, ou deixando de confiar nela, ou provocando-a. “Vivian, isso é paranoia”, repito. Ela não me dá ouvidos.

Como a gente se quer muito bem, ela sabe que estou apenas tentando ajudá-la. Procuro, com minha psicologia de almanaque, fazê-la entender que é muito desgastante viver assim na defensiva, armada contra o mundo, sempre exigindo que os outros correspondam à sua competência e gentileza. Porque tem isso: minha amiga é extremamente competente e gentil, e ai de quem não for, no mínimo, igual ou melhor do que ela. Como a maioria das pessoas é normal, ou seja, lenta, desligada, apressada, desatenta, Vivian se exaspera. É uma obsessiva pela perfeição. Assim como ela, conheço outras tantas pessoas que acreditam na tese da conspiração. É como se o mundo inteiro estivesse empenhado em não deixar a vida desses taurinos - que também podem ser leoninos, ariano, geminianos e demais nativos do zodíaco - deslanchar. Eu arranco os cabelos quando me deparo com uma criatura assim e pergunto: você acredita mesmo que estão todos ocupados em passa-la para trás, que eles têm tempo sobrando para isso? Pergunta besta a minha.

A frase que deveria ser dita soa antipática, mas é o que nossos amigos e parentes que sofrem desse complexo precisariam ouvir: você não é tão importante. Ninguém está tão preocupado assim com você, a não ser a meia dúzia que te ama de verdade. Não há conspiração alguma. Se as coisas parecem dar mais errado para você do que para os outros, não é porque você atrai gente falsa ou encrenqueira. Sua desconfiança é que atrapalha o bom andamento da vida. Libere-se dessas neuras e olhe em volta: todos têm mais o que fazer do que lhe dar atenção o tempo inteiro.

Você teria coragem de dizer isso a uma amiga? Eu já disse, mas cheia de dedos. Vivian, por sorte, é bem-humorada e acaba rindo disso tudo. Mas não muda. Vai me matar por estar falando dela nesta crônica, ela que não se chama Vivian coisíssima nenhuma.


Domingo, 15 de julho de 2007.



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